Read A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho by Mário de Carvalho Online

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O grande Homero às vezes dormitava, garante Horácio. Outros poetas dão-se a uma sesta, de vez em quando, com prejuízo da toada e da eloquência do discurso. Mas, infelizmente, não são apenas os poetas que se deixam dormitar. Os deuses também.Assim aconteceu uma vez a Clio, musa da História que, enfadada da imensa tapeçaria milenária a seu cargo, repleta de cores cinzentas eO grande Homero às vezes dormitava, garante Horácio. Outros poetas dão-se a uma sesta, de vez em quando, com prejuízo da toada e da eloquência do discurso. Mas, infelizmente, não são apenas os poetas que se deixam dormitar. Os deuses também.Assim aconteceu uma vez a Clio, musa da História que, enfadada da imensa tapeçaria milenária a seu cargo, repleta de cores cinzentas e coberta de desenhos redundantes e monótonos, deixou descair a cabeça loura e adormeceu por instantes, enquanto os dedos por inércia continuavam a trama. Logo se enlearam dois fios e no desenho se empolou um nó, destoante da lisura do tecido. Amalgamaram-se então as datas de 4 de Junho de 1148 e de 29 de Setembro de 1984.Os automobilistas que nessa manhã de Setembro entravam em Lisboa pela Avenida Gago Coutinho, direitos ao Areeiro, começaram por apanhar um grande susto, e, por instantes, foi, em toda aquela área, um estridente rumor de motores desmultiplicados, travões aplicados a fundo, e uma sarabanda de buzinas ensurdecedora. Tudo isto de mistura com retinir de metais, relinchos de cavalos e imprecações guturais em alta grita.É que, nessa ocasião mesma, a tropa do almóada Ibn-el-Muftar, composta de berberes, azenegues e árabes em número para cima de dez mil vinha sorrateira pelo valado, quase à beira do esteiro de rio que ali então desembocava, com o propósito de pôr cerco às muralhas de Lixbuna, um ano atrás assediada e tomada por ordas de nazarenos odiosos....

Title : A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho
Author :
Rating :
ISBN : 3474612
Format Type : capa mole
Number of Pages : 96 Pages
Status : Available For Download
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A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho Reviews

  • César Lasso
    2019-02-07 11:44

    Este é o livro português mais original que já li. A sua singularidade não tem nada que invejar à do moçambicano Mia Couto. A obra, muito breve, é uma recopilação de seis contos, cada qual mais estranho.A primeira notícia que tive de Mário de Carvalho foi enquanto investigava para o meu artigo de divulgação em Espanha sobre romance histórico português. Para a minha escrita, foram de grande utilidade o próprio Goodreads e as fichas sobre romance histórico de Pedro Almeida Viera. Foi a través desse último que tropecei com A Inaudita Guerra.No entanto, devo dizer que o livro tem pouco a ver com ficção histórica. Como a ficha do Pedro Vieira explica, apenas dois dos contos guardam alguma relação com essa temática e, um deles, de forma muito vaga. Outra maneira de ver o livro (um ponto de contacto entre todas as estórias) é uma quotidianidade distorcida em que as personagens não estão plenamente cientes de penetrarem no território do surreal.Este autor não me deixou indiferente. Pareceu-me um estranho cruzamento lusitano entre The Mist (O Nevoeiro) de Stephen King e os mais disparatados contos do catalão Pere Calders (Cròniques de la veritat oculta, Invasió subtil i altres contes…). Não surpreende que o relato que dá título à obra fosse objecto de uma dissertação de mestrado (acessível na Internet: https://repositorioaberto.uab.pt/bits... ) que tenho tenção de ler no futuro.

  • Inês
    2019-01-31 13:30

    Um livro de contos divertidíssimo, onde a crítica aparece à vista de todos forrada a sarcasmo. Grande parte versa sobre crenças religiosas e todos assentam num universo fantástico ou non sense do qual, geralmente, não sou fã mas que aqui me pareceu indispensável. Gostar de 6 em 6 contos, ainda que de uns mais do que de outros, é um resultado vencedor e animador que prova que a minha primeira experiência com Mário de Carvalho não podia ter corrido melhor. Sigo com um romance que estas pequenas histórias souberam a pouco.Dizem que a língua portuguesa tem quase meio milhão de palavras, não me espantaria que Mário de Carvalho as usasse a todas. Aprendamos com ele.

  • Maria Carmo
    2019-01-20 09:27

    Eis um livro totalmente inesperado, com um subtil humor e um caracter tão "Lusitano" que me deixou realmente feliz de ter descoberto este autor, de quem até agora nunca tinha lido nada.A atenção dos leitores vai naturalmente para o conto que dá nome à obra: "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho" - um primor de imaginação e de escrita! Graças ao breve sono de Clio, Musa da História, misturam-se durante algum tempo dois fios do tempo: e é assim que chegam em plena Avenida Gago Coutinho cheia de trânsito, os guerreiros Árabes que se preparavam para tentar conquistar Lisboa...Mas dos seis contos, todos eles maravilhosos por inesperados e surrealistas!, pelo menos dois outros me merecem menção especial: o caso do casal que toma conta dum Macaco chamado Golo que esporadicamente escreve à maquina citações da "Menina e Moça" de Bernardim Ribeiro (caso só resolvido por um Matemático!) e o último conto, que ainda hoje pode ser lido como uma imagem crítica da intolerância e superstição, das perseguições àquelles que não entendemos, ainda que sejam benéficos, da maldição que pode abater-se quando uma turba enfurecida tenta através da violência derrotar o medo.Absolutamente a ler!Maria CarmoLisboa 28 de Janeiro de 2012.

  • Andreia
    2019-02-10 14:26

    PT - https://d311nh4.wordpress.com/2016/04...

  • Isabel Maia
    2019-02-09 14:40

    Esta pequena obra (não chega às 90 páginas) reúne seis contos publicados pelo autor em 1983. O mais conhecido de todos é o que vem a dar o nome a esta colectânea, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho. Nesta pequena narrativa relata-se as consequências da mistura de duas datas, 4 de Junho de 1148 e 29 de Setembro de 1984, causada pela momentânea sesta de Clio, a musa da História. Assim, em plena Av. Gago Coutinho encontraram-se automobilistas do séc. XX e guerreiros do séc. XII. Assustados com a situação, os guerreiros muçulmanos prepararam-se para a batalha o que levou à intervenção da polícia e do exército. No momento exacto em que os dois povos iriam começar a guerrear, Clio acordou e rapidamente devolveu cada povo à sua época, limpando-lhes as memória.Apesar de esta obra fazer parte do programa escolar de Língua Portuguesa, não me recordo de alguma vez a ter estudado nesse contexto. Mas como diz o sábio povo "Mais vale tarde do que nunca". Esta faceta mais "contista" dos autor é uma faceta diferente da que abordei o ano passado. Este conjunto de contos começa por textos curtos (o mais curto tem 3 páginas) e com o avançar da colectânea o tamanho dos mesmos vai aumentando (o mais longo tem cerca de 17 páginas). Com a excepção do último conto, que incorpora elementos mais do domínio da lenda, todos os restantes textos apresentam elementos predominantemente ligados ao nonsense, como elevadores cuja última paragem é no Céu ou tartarugas no topo de edifícios. Encontrei apenas um ponto negativo que gostava de focar. No conto Pede poena claudo, o autor coloca em nota de rodapé um aparte que se torna demasiado longo, o que corta a dinâmica de leitura desse mesmo conto. Com mais esta boa surpresa, Mário de Carvalho é um autor para continuar a conhecer.

  • Ângelo
    2019-01-18 12:40

    SinopseUma horda de cavaleiros berberes do século XII vê-se subitamente em plena Avenida Gago Coutinho por incúria da deusa Clio, que se deixa adormecer, enredando na sua tapeçaria milenar os acontecimentos de 4 de Junho de 1148 e 29 de Setembro de 1984.Um elevador não pára de subir. Um frade no seu convento resiste ao Dia do Juízo Final. Um homem simples vive um quotidiano dantesco.Um chimpanzé é capaz de reescrever a obra Menina e Moça. Um navio negro, desarvorado, muito maltratado pelo mar, dá à costa, trazendo consigo a pestilência. Um padre exorcista tem uma estranha particularidade anatómica.Integrada no Plano Nacional de Leitura, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho é uma das obras mais emblemáticas de Mário de Carvalho.OpiniãoO conto a que dá título a este livro é simplesmente fantástico, recomendado.O resto dos contos oscilam entre um bom e muito bom mas sem nunca fazerem sombra a este emblemático conto "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho". Posso afirmar que como fiquei vidrado no primeiro conto todos os outros me pareceram algo distantes deste.A escrita de Mário de Carvalho é fabulosa quando se alia esse sentido estético da palavra a uma história simples e como muita imaginação obtemos uma obra-prima.O livro, só por si, vale pelo conto que lhe atribui o título.

  • Xana Barreto
    2019-02-02 14:42

    Através de um realismo quase assustador e a utilização de vocabulário erudito, Mário de Carvalho transporta-nos por inauditas aventuras...

  • Rosa Ramôa
    2019-02-17 11:25

    6 contos...

  • Raquel Dias da Silva
    2019-02-12 11:38

    Desconhecia o autor. Descobri-o através de um concurso de leitura em que estou a participar. É um livro bastante pequeno, constituído por seis contos, que se lê em uma, duas horas, no máximo. Confesso que foi com estranheza que li o primeiro conto, "In excelsum", sobre um homem que fica preso num elevador e acaba por chegar, supostamente, até Deus, que diz, na minha perspectiva, uma das frases mais marcantes: "-São imprevisíveis os caminhos que a Mim conduzem." Não sendo religiosa, acabei à mesma por achar fantástico.O segundo conto é talvez o que menos gostei e o terceiro é aquele que dá o nome ao livro, "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho". A história começa quando justamente a Musa da História, Clio, adormece e enleia inadvertidamente dois fios, misturando duas datas, a de 4 de Junho de 1148 e 29 de Setembro de 1984. Imagine-se árabes, mouros e sei lá que mais de 1148 a passear por Lisboa de 1984... Uma algazarra, uma cena completamente do outro mundo, e este tom surrealista, presente em todos os contos, não me cativou à primeira, mas é realmente o que confere beleza às narrativas!Os dois a seguir, "Dies irae" e "O nó estatístico" são muito giros, principalmente o segundo, sobre um macaco que escreve excertos do livro "Menina e Moça".O último foi-me indiferente e custou-me a ler, provavelmente até é aquele com o significado mais importante, mas não foi eficaz, não consegui criar empatia.Não costumo ler livros de contos e nunca li mais nada de Mário de Carvalho, de modo que para primeira vez foi com alguma dificuldade que o li. Dou três estrelas pela maneira como escreve e pelo facto da maioria das histórias me ter cativado, mas não é o meu género de livro.

  • Carolina Guimarães
    2019-02-02 09:42

    Talvez tenha lido este livro na altura errada, talvez não tenha maturidade suficiente para o entender (embora seja um livro recomendado pelo Plano Nacional de Literatura, por isso não creio que se trate disso) ou então, em algumas ocasiões, o sono e a desmotivação era tanta que eu não prestei a devida atenção. Não sei se este seis contos têm, para além de um sarcasmo claríssimo, alguma mensagem por detrás - mas se têm, não as consegui descobrir, o que me irritou de cada vez que cheguei ao fim de cada uma das histórias. A única coisa que não torna este livro intragável para mim é a escrita espetacular de Mário de Carvalho, que mesmo com histórias sem nexo, meio fantásticas/meio parvas, consegue tornar tudo muito melhor. É, sem dúvida, dos autores portugueses que mais gosto de ler, tanto pela linguagem rica como pela forma como conta as história, liga as frases e as constrói - parecem ser pensadas uma a uma, com uma minuciosidade admirável para as tornar a todas bonitas.O primeiro conto, que dá nome ao livro, foi o único que apreciei de verdade - em todos os outros já esperava o fim pouco depois de os começar a ler. Fiquei feliz quando finalmente cheguei à última página e não tive de o abrir novamente.

  • Jorge Pinto
    2019-02-08 14:38

    Pequeno livro de contos onde Mário de Carvalho dá largas à sua imaginação, tratando e trabalhando o português como poucos. A porta que deixa sempre aberta entre fantasia e realidade e aberta e fechada constantemente, convidando sempre o leitor a entrar. É um daqueles livros que se lê e relê sempre com gosto e quase sempre com um sorriso na cara.

  • Ke
    2019-02-17 09:27

    Because Catholic theology, statistics and afterlife are not topics that particularly interest me, I was not that into this book. That is not to say that it is not witty and descriptive, only not a fan of the themes.

  • Maria Miranda
    2019-02-09 10:31

    Este é o livro mais estranho que já li em toda a minha vida!Elevadores que sobem até ao Céu, frades que flutuam, uma guerra no meio do transito, e o mais estranho, alguém que tem um monstro dentro da banheira e age como se não fosse nada muito importante... Simplesmente assustador!

  • Ana Silva Rosa
    2019-02-11 08:43

    Read for school.

  • Ana Rocha
    2019-01-26 08:44

    Nao é mau... até foi uma leitura agradável!

  • Verena Ribeiro
    2019-02-07 16:40

    Maravilhoso!